É fácil demonizar aquele que traz as más notícias, mas na literatura e nos negócios, o antagonista muitas vezes é apenas o portador da realidade. Em Além das Vinhas, Gabriel Duarte, o executivo da Endeavor Capital Group, não entra em cena para destruir sonhos, mas para auditar a viabilidade deles. Com ternos impecáveis e uma visão cirúrgica sobre ineficiências, ele representa o relógio do mundo globalizado, lembrando-nos de que a paixão, sem caixa, é apenas uma contagem regressiva para a insolvência.
Gabriel coloca na mesa o argumento que muitos gestores evitam enfrentar: a tradição pode ser uma âncora ou uma vela, dependendo de como é financiada. Para ele, a recusa de Augusto em modernizar processos não é nobreza, é negligência corporativa. Ele oferece à Casa Vasconcelos a chance de escala, de acesso a mercados internacionais e de profissionalização — o “sonho” de qualquer empresa estagnada. O seu confronto com a família não é sobre o bem contra o mal, mas sobre a lógica contra a emoção. Ele questiona: vale a pena manter a “alma” do negócio se o corpo da empresa estiver morrendo?
A presença de Gabriel na narrativa é um teste de fogo para as convicções do leitor. Ele nos obriga a encarar os fatos frios do balanço patrimonial e a reconhecer que, muitas vezes, a sobrevivência exige mudanças dolorosas. Ao ler Além das Vinhas, você se pegará concordando com ele mais vezes do que gostaria, o que torna o desfecho desse embate ainda mais imprevisível e necessário.
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